A verdade sobre fake news

A primeira pergunta que deve ser respondida para compreendermos este fenômeno é por que ele é chamado de ‘fake news’ e não de ‘notícias falsas’? O termo é usado em inglês pois foi popularizado por Donald Trump quando ele estava em campanha presidencial para se referir a grandes veículos da mídia – como CNN, CBS, ABC, NBC, NY Times e Washington Post – que sempre retratavam o candidato de forma negativa, dando grande destaque a qualquer coisa que o pudesse denegrir e praticamente nenhum destaque a algo que o pudesse favorecer. Não importa se é uma notícia que se refere a um fato real ou um boato falso, e sim o enfoque e o destaque dados. O que começou na campanha continuou após ele ser eleito.

E por que a grande mídia o retrata deste jeito? Primeiro porque não só os donos e dirigentes destes veículos são apoiadores do partido Democrata adversário de Trump, como também a imensa maioria dos jornalistas são democratas progressistas esquerdistas, e Trump é um republicano direitista. Segundo porque os jornalistas – assim como todo mundo – sofrem do viés de confirmação; a tendência de interpretar os acontecimentos de acordo com suas crenças. Os jornalistas podem acreditar que estão imunes a esse viés e que reportam os fatos de maneira isenta, mas no caso da grande mídia isso é notoriamente falso.

O escritor e comentarista político americano Andrew Klavan desenvolveu 3 regras para ajudar a identificar fake news:

Regra 1: Sempre que um evento confirma os preconceitos de esquerda, esse evento é tratado como representativo. Mas sempre que os preconceitos de esquerda são contrariados por um evento, esse evento é tratado como um incidente isolado – e se você o tratar como representativo, você é considerado alguém que “incentiva o ódio”.

Regra 2: Quando surge um escândalo na direita, a notícia é o escândalo. Quando surge um escândalo na esquerda, a notícia é: quem divulgou injustamente essa escandalosa informação?

Regra 3: Extremistas individuais de direita recebem grande destaque enquanto o extremismo generalizado da esquerda é ignorado. Por exemplo, quando os pacíficos membros do movimento Tea Party pediam menos governo conforme previsto na Constituição, eram os radicais; quando os violentos membros do Occupy pediam pela intromissão generalizada de um governo socialista, eram os heróis. Totalmente fake news.

No Brasil acontece a mesma coisa. O meio jornalístico é também quase que totalmente composto por esquerdistas, o que faz com que a grande mídia não passe de um grande divulgador de fake news; os acontecimentos chegam ao público sempre com um acentuado viés esquerdista, já com os heróis e vilões eleitos pela narrativa. Além do exemplo de Trump, que é tratado pela mídia brasileira da mesma forma que é tratado pela americana – com os brasileiros simplesmente repetindo tudo que a grande mídia americana diz e acrescentando seus próprios preconceitos – podemos usar como exemplo de fake news o tratamento dado a Bolsonaro que por desafiar alguns dogmas politicamente corretos da esquerda é tratado como alguém inaceitável.

O presidente do Instituto Rothbard, Cristiano Chiocca, também nos fornece um exemplo da fake news brasileira:

Ainda somos um país dominado pela extrema esquerda e não será Bolsonaro a mudar isso.
Observando a grande mídia comentar a nova bancada da câmara podemos ter uma pequena amostragem disso.
O termo mais usado para designar os deputados mais à direita é “bancada BBB”, ou Bancada do boi, bíblia e bala.
Veja só a jogada na escolha dos termos, não é bancada da agricultura, valores familiares e segurança.
É da bíblia (ó, terror dos terrores, o obscurantismo fundamentalista), do boi (monstros da indústria da carne que desmata para criar animais a serem devorados) e da bala (esses assassinos que incitam uma sociedade violenta).
Não obstante; as pautas de esquerda são quase como ursinhos gummy, a bancada dos “movimentos sociais”, dos “trabalhadores”, “dos direitos humanos”, do “meio ambiente”.
Nunca são reconhecidos pelo que realmente são, a citar, bancada de invasores, do sindicalismo pelego, da leniência com o crime, do encarecimento alimentar.
Que deputados servem para defender os comezinhos interesses de grupos específicos ninguém discorda mas as pautas de esquerda sempre são mascaradas como de interesse geral, do bem enquanto a direita sempre é o grupo do mal com interesses retrógados que servem a interesses particulares.
Qualquer governo de direita passará 4 anos, durante todos os dias, ininterruptos sob esse julgo, sem nem saber que o domínio da linguagem pela esquerda já o condena de ante-mão; é uma propaganda contra que bombardeia a população deslocando o espectro do senso comum para a esquerda.
Assumir o governo tem quase ou nenhuma importância se o controle da manipulação da linguagem for monopólio da esquerda.
Há muito a ser feito.

E realmente nos EUA nada mudou em relação a fake news após a eleição de Trump. Desde sua vitória a grande mídia continua seu incessante ataque ao presidente direitista. Com toda certeza aqui será igual.

O maior veículo de fake news do Brasil, a Globo, logo que o termo começou a ser popularizado por Trump já iniciou seus esforços para inverter seu significado no melhor estilo orwelliano. Em suas reportagens começou a dizer que fake news se refere a notícias falsas de internet e que para não cair nessas fake news era preciso recorrer a fontes ‘confiáveis’, como a grande mídia, como a Globo! Ora, notícias falsas sempre existiram, e na internet sempre foram populares – que o diga o lendário Joselito Muller, sucesso já de muitos anos nas redes. No começo deste ano, no esforço de solidificar esta versão, o canal Globonews veicula um impagável documentário chamado Fake News: Baseado em fatos reais, “explicando” o que são e quais os perigos representados pelas fake news. E para concretizar, recentemente a principal agência de fake news do Brasil se arrogou a função de proteger o público das fake news (!!) lançando o site Fato ou Fake, serviço de checagem de conteúdos suspeitos.

Portanto, para o grande público no Brasil, “fake news” agora são “notícias falsas”; porém, continuam utilizando o termo em inglês, conforme popularizado por Trump – apenas trocaram seu significado para um que não os prejudicasse, como o verdadeiro.

Logicamente o fenômeno das fake news não passou desapercebido pelo governo, que sempre tentou de tudo para censurar a internet. Há muito tempo que o deputado Eduardo Azeredo (PSDB) dedicava metade de sua energia no parlamento para o propósito de acabar com as liberdades na internet – a outra metade ele usava para roubar, até que foi preso por corrupção. O marco civil da internet também foi outro passo de destaque nesse esforço de censura do governo. E como era de se esperar, o estado não deixou passar a oportunidade de usar o alarde criado em torno das fake news para tentar aumentar seu controle sobre a rede. Já existem 20 projetos de lei no Congresso que pretendem criminalizar fake news e foi no dia 7 de junho de 2018 que a justiça executou pela primeira vez a norma que coíbe fake news ordenando que o Facebook deletasse algumas postagens contrárias a candidata Marina Silva. E o candidato Haddad já pediu que o aplicativo Whatsapp fosse censurado.

Mas será que existe alguma necessidade de se usar coerção contra a livre expressão para combater notícias “falsas” – e para definir o que é falso ou verdadeiro criar um ‘Ministério da Verdade’ como o da obra distópica 1984? (Que se torna inevitavelmente o ministério da mentira usado pelo governo para forjar todo tipo de notícia falsa que o favoreça) Murray Rothbard nos dá a resposta no seu A Ética da Liberdade. Além de ser um crime contra a propriedade privada, a censura de ideias ou notícias falsas pelo governo é totalmente desnecessária, pois o livre mercado corrige naturalmente qualquer abuso neste sentido. Assim, ele diz:

Nossa teoria de direitos de propriedade pode ser usada para desembaraçar um confuso emaranhado de problemas complexos que circundam as questões de informação, verdadeira e falsa, e de sua disseminação.  Será que Silva, por exemplo, tem o direito (…) de publicar e de disseminar a declaração … que “Rodriguez é um ladrão”…?  Existem três possibilidades lógicas a respeito da veracidade de tal declaração: (a) que a declaração sobre Rodriguez é verdadeira; (b) que ela é falsa e que Silva sabe que ela é falsa; ou (c) mais realística, que a veracidade ou falsidade da declaração não é clara, que não é possível saber certa ou precisamente (…). Suponha que a alegação de Silva seja absolutamente verdadeira. Silva possui o pleno direito de publicar e de disseminar a alegação.  Pois agir dessa maneira está de acordo com seu direito de propriedade….

Mas e se a informação for falsa? Rothbard continua:

Será que Silva tem o direito de disseminar a informação falsa a respeito de Rodriguez?  Em resumo, será que “calúnia” e “difamação” deveriam ser ilegais na sociedade livre? …  Silva tem um direito de propriedade às ideias e opiniões em sua própria cabeça; ele também tem um direito de propriedade de publicar qualquer coisa que ele queira e de disseminá-la.  Ele tem o direito de propriedade de dizer que Rodriguez é um “ladrão”, mesmo se ele souber que isso é falso, e de, então, publicar e vender esta declaração.  A opinião contrária, e as bases atuais para defender que calúnia e difamação (especialmente de falsas declarações) sejam ilegais, é a de que todo homem possui um “direito de propriedade” sobre sua própria reputação, que a falsidade de Silva prejudica esta reputação, e que, portanto, as difamações de Silva são invasões dos direitos de propriedade de Rodriguez sobre sua reputação e deveriam ser ilegais.  …  Mas, uma vez que todo homem possui sua própria mente, ele não pode, portanto, possuir as mentes de quaisquer outros. …  A “reputação” de Rodriguez é simplesmente uma função das crenças e atitudes subjetivas a respeito dele contidas nas mentes de outras pessoas.  …  Rodriguez não pode ter nenhum direito de propriedade sobre as crenças e as mentes de outras pessoas.

E complementa:

Logicamente, podemos prontamente reconhecer a flagrante imoralidade de se difamar falsamente outra pessoa.  Mas, mesmo assim, devemos preservar o direito legal de qualquer um fazer isso.  Pragmaticamente, de novo, esta situação pode muito bem contribuir para o benefício das pessoas que são difamadas.  Pois, na situação atual, em que as difamações falsas são proibidas por lei, a pessoa comum tende a acreditar que todas as notícias depreciativas divulgadas sobre as pessoas são verdadeiras, “caso contrário elas receberiam processos por calunia e difamação”.  Esta situação discrimina os pobres, já que as pessoas mais pobres são menos propensas a levar adiante na justiça um processo contra difamadores.  Consequentemente, as reputações das pessoas mais pobres ou menos ricas estão sujeitas a sofrer mais hoje, quando a difamação é proibida, do que elas estariam se a difamação fosse legítima.  Pois, nesta sociedade libertária, uma vez que todos saberiam que histórias falsas são legais, haveria muito mais ceticismo por parte dos leitores e ouvintes, que iriam exigir muito mais provas e acreditar menos em histórias depreciativas do que acreditam hoje.

Portanto, a disseminação livre de notícias falsas gera um aumento de desconfiança a respeito das fontes por parte do público, que deixa de acreditar em tudo. Fontes que repetidamente divulgam notícias que depois são comprovadas falsas perdem credibilidade – uma única notícia falsa já é um abalo de credibilidade muito difícil de ser superado. E o mesmo acontece no caso de divulgação de fake news. Os grandes veículos da mídia que há décadas divulgam notícias com viés esquerdista já sofrem justamente com uma perda irreparável de sua credibilidade. Globo, Folha, Estado, Veja, e muitos outros veículos tiveram uma diminuição enorme de leitores e telespectadores. A revolução das comunicações proporcionada pela internet e por aplicativos de mensagens gratuitas tirou muita força da grande mídia e a torna cada vez mais irrelevante; mas essa perda de espaço não é só devido a avanços tecnológicos como também por pura descrença do público, que percebe cada vez mais o viés esquerdista e não aguenta mais. Hoje em dia, uma capa de Veja, que já teve o poder de influenciar decisivamente o resultado de eleições, tem menos influência do que um meme que viraliza.

Pode servir de evidência desta perda de poder da mídia as vitórias eleitorais de Trump, Bolsonaro e muitos outros políticos de direita pelo mundo. (O filme Hoaxed: Everything They Told You is a Lie! , que está para ser lançado, com a participação de grandes nomes da ‘mídia alternativa’ como Stefan Molyneux, Jordan Peterson, Alex Jones e Gavin McInnes, fará um contraponto a versão de fake news da grande mídia). Porém, ainda que os libertários (que são naturalmente de direita) possam reconhecer o valor dessa descrença das agências esquerdistas de fake news, isso não é nada diante do domínio das ideias estatistas e da constante divulgação de fake news – de esquerda e de direita – sempre com o viés de defesa da agressão e roubo generalizados do estado.


Por Fernando Chiocca, intelectual anti-intelectual e praxeologista.

Publicado originalmente por Instituto Rothbard

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