Cinco razões pelas quais o antidoping é injusto

O esporte é provavelmente a representação mais explícita da meritocracia. Muitos o usam como uma metáfora da própria vida, para explicar às crianças de que recompensas só são devidas a quem se esforça, se dedica, e compete de maneira justa. Os fatores arbitrários são diminuídos ao mínimo possível, exceto pelo exame antidoping que continua gerando vantagens para uma minoria.

No vôlei de praia, os jogadores trocam de lado na quadra constantemente, para que nenhum time seja favorecido pelo vento a favor ou prejudicado pelo sol contra. Nas corridas de 100m, basta um vento a favor de 2km/h para invalidar um recorde.

Embora o acaso às vezes seja um fator relevante, é uma obrigação moral diminuir ao máximo sua influência. Levando em consideração que o atleta é a idealização do ser humano não só em termos físicos, mas também morais, sendo usado constantemente como um exemplo a inspirar as pessoas para sentimentos nobres como a determinação e a honestidade, a trapaça nos causa ojeriza. A fraude, a obtenção de vantagens à custa do prejuízo alheio, é ultrajante em todas as áreas. Mas esse sentimento é multiplicado numa atividade que tem a nobreza de espírito como norteadora.
Nesse contexto, parece que proibir os atletas de recorrerem a métodos que alteram significativamente sua fisiologia para ganho de desempenho proporciona uma competição mais equânime. Provo a seguir que o efeito é justamente o contrário.

1) O antidoping favorece atletas com vantagens inatas.

Nem toda capacidade física é resultado de treinamento. Um número considerável delas não é. Muitos profissionais do esporte concordam com a sentença “maratonista se cria, velocista nasce”. Segundo Tudor Bompa, um dos principais teóricos da ciência do treinamento desportivo, é possível obter consideráveis ganhos de rendimento de endurance e força com o treinamento. Mas a velocidade é uma capacidade biomotora dependente de fatores fisiológicos pouco moldáveis, como a espessura da camada de mielina do neurônio. Essa é a mesma dádiva que faz o brasileiro Tiago Della Vega ser um dos guitarristas mais rápidos do mundo, conforme mostrado no programa televisivo “Os Superhumanos – América Latina”. Em suma: não adianta todo o treinamento do mundo, você não será um Usain Bolt (ou um Tiago Della Vega) se não tiver nascido com os genes certos.

Falando em Usain Bolt, só o fato de ser negro já lhe proporciona uma vantagem, como argumenta o jornalista Jon Entine em seu livro Tabu: por que atletas negros dominam os esportes e por que temos medo de falar nisso. Dos 71 atletas que já correram 100m abaixo dos 10s, apenas 1 é branco. O maratonista brasileiro Marilson Gomes dos Santos, bicampeão da maratona de Nova Iorque, tem um VO2 máximo (termo técnico referente à capacidade de captar e consumir oxigênio) de 80ml/kg/min. É uma vantagem inata. Um sedentário tem valores por volta de 25 ml/kg/min. Uma pessoa regularmente ativa, cerca de 40 ml/kg/min. Com o treinamento, é possível alcançar valores por volta dos 60, excepcionalmente 70 ml/kg/min. Mas 80, só com genética privilegiada. Ou com muito doping.

O ex-fisiculturista Flex Wheeler, um dos mais injustiçados da história do Mr. Olympia, com três vice-campeonatos incluindo uma inexplicável derrota para Ronnie Coleman em 1999, (esportes dependentes de jurados sofrem desses problemas) possui uma condição raríssima chamada inibição da miostatina. Miostatina, como o próprio nome indica (mio=músculo, stat=parar, ina=proteína), é uma proteína que retarda o crescimento muscular. Flex Wheeler a tem pouco ativa, o que significa que seus músculos, com o mesmo nível de treinamento dos concorrentes, podem crescer bem mais rapidamente.

Desses exemplos pode se concluir que, numa condição entre atletas que se esforçaram igualmente, em condições naturais, alguns vão gozar de uma ampla vantagem. O que a permissão do doping faria seria diminuir essa distância. Há quem argumente que se o doping fosse permitido, TODOS os atletas se dopariam, logo a distância entre eles continuaria a mesma. Há de se esclarecer o conceito de treinabilidade. Quanto mais perto do limite está um atleta, menos margem existe para acréscimo de desempenho. É impossível quebrar o recorde dos 100m rasos indefinidamente: chega um ponto em que a força necessária para correr abaixo de – chutando um valor – 8 segundos seria tanta que os tendões se romperiam e os ossos se quebrariam. Pode ser que um atleta geneticamente sortudo corra esses 100m em 8,3 segundos sem doping, e passe a correr em 8,2 com doping. Outro atleta, menos sortudo em relação a seus genes, faz 8,7 sem doping e 8,5 com doping. A diferença entre eles, que no estado natural era de 0,4 segundos, passou a ser de 0,3.
Levando em consideração que o atleta sem tantas capacidades inatas tem mais a ganhar com o doping, permiti-lo traria sim maior equilíbrio à balança.

2) O antidoping favorece atletas ricos

Não importa o quanto a WADA (Agência Mundial Anti Doping, na sigla em inglês) se esforce. A indústria do doping sempre está um passo à frente, pesquisando métodos que não sejam detectáveis. Como essa atividade é clandestina, os profissionais dessas indústrias cobram não apenas o serviço do doping, mas também o adicional de risco da profissão que exercem. De modo que só atletas ricos, ou pertencentes a delegações ricas, têm acesso a métodos de doping mais sofisticados, como a manipulação genética. Enquanto isso, atletas menos providos financeiramente, além de correrem mais risco de serem flagrados, colocam a própria saúde em perigo ao recorrer a métodos ergogênicos grosseiros, como a administração de eritropoeitina. A eritropoietina aumenta a produção de glóbulos vermelhos, garantindo assim maior transporte de oxigênio no sangue. Mas também torna o sangue mais denso, aumentando o risco de coágulos e hipertensão.

3) A permissão do doping favoreceria a saúde dos atletas e prolongaria suas carreiras.

Chael Sonnen, lutador aposentado do UFC, sofre de hipogonadismo (condição que causa produção insuficiente de hormônios sexuais, entre os quais a testosterona). Há quem diga que ele mesmo causou esse problema ao se dopar irresponsavelmente na juventude. Isso não importa. O fato é que a continuidade de sua carreira dependia da administração de TRT (terapia de reposição de testosterona). Quando ela foi proibida, Sonnen foi obrigado a se aposentar. Mesmo quem odiava seu comportamento canalha tem que admitir que foi uma perda para o esporte. Ele era um dos melhores lutadores de sua divisão.
Um provável argumento contrário à permissão do doping seria o agravamento do abuso do corpo dos atletas, que seriam submetidos a padrões ainda mais altos de rendimento. Mas outra consequência seria o aumento do número de pesquisas para encontrar métodos de doping mais seguros, que aumentem o rendimento sem causar lesões. Sobre como a administração de hormônios não é o veneno que a grande mídia divulga, a maior prova vem do médico estadunidense Jeffry Life. Com 70 anos, esse senhor é uma montanha de músculos, e tem uma vida sexual e esportiva ativa. Ele alega que, sem esse tratamento, poderia estar morto. Pesquisas comprovam que a administração de testosterona pode inclusive inibir a formação de tumores. Com a permissão do doping, muitos atletas poderiam desfrutar dos mesmos benefícios do Dr. Life. E as torcidas não teriam que lamentar aposentadorias precoces como a de Gustavo Kuerten, que teve de interromper a carreira por causa de uma lesão.

4) A permissão do doping favoreceria o espetáculo.

Falemos de outro lutador do UFC, da mesma categoria do aposentado Sonnen: Vitor Belfort. Depois que começou a fazer a reposição de testosterona, lutou três vezes sob os efeitos dela, conseguindo três nocautes espetaculares. Sua evolução física também foi notória. Depois que o TRT foi proibido, Belfort sofreu um visível retrocesso físico. Seu desempenho também caiu, como pôde ser constatado em seu desempenho pífio na luta contra Chris Weidman, a primeira depois da proibição. Se o doping fosse permitido, veríamos atletas mais fortes, mais rápidos e mais resistentes competindo. Os atletas poderiam chegar na fase final das partidas com o mesmo desempenho do início. Resultados que hoje são decididos por uma diferença de endurance entre um atleta e outro seriam mais dependentes da técnica, obrigando os atletas a jogar bem até o final do jogo.

5) Pelas quatro razões anteriores, combater o doping é desperdício de dinheiro.

Uma boa parte do dinheiro que os torcedores pagam para assistir eventos esportivos, e do dinheiro que os publicitários pagam para anunciar, é usada para pagar os salários dos fiscais e burocratas a serviço da WADA que, como visto no item 2, dão murro em ponta de faca. Se esse dinheiro fosse investido em pesquisa científica para se encontrar métodos de doping mais seguros, todos se beneficiariam, inclusive os atletas mais pobres. Um efeito colateral da clandestinidade é a reserva de mercado para atletas ricos. Se houvesse um livre mercado de laboratórios concorrendo entre si, a consequência seria como a de qualquer livre mercado: aumento da qualidade e queda do preço. E com isso atletas mais saudáveis, mais eficientes e torcedores mais felizes. E, acima de tudo, competições esportivas mais JUSTAS. Se queremos ensinar a justiça para nossas crianças através do esporte, devemos ressaltar que pesquisar métodos de doping seguros é uma atividade bela e moral.


Por Daniel Noboru Umisedo

1 Comentário

  1. só um comentário, algumas pessoas (pela genética) vão reagir melhor ou pior ao dopping, mesmo q hajam pesquisas pra diminuir as particularidades negativas, ainda existiriam algumas (intransponíveis biologicamente) e a diferença pelo acaso genético continuaria.

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