Estudo bíblico e histórico sobre a poligamia

BLAINE ROBINSON (autor)
CHRISTIANO JABUR (tradutor)

Nota do autor: Este artigo é uma versão atualizada do artigo publicado em maio de 2006. Este artigo sofreu várias revisões menores, mas essa revisão envolveu uma completa verificação do artigo e das referências citadas. A substância básica não mudou, mas todas as referências da Internet e das Escritoras foram checadas novamente e em alguns casos atualizadas. Descobriu-se que alguns endereços da web usados anteriormente foram extintos. Todos os endereços da internet citados nesta edição estão ativos a partir da data desta publicação. Em adição, a maneira de citar referências foi alterada em conformidade com os padrões acadêmicos e links adicionados para muitos trabalhos na internet e em domínio público.

Terminologia: A fim de enfatizar a natureza judaica da mensagem e dos escritos apostólicos, eu uso os termos Yeshua (Jesus), Messiah (Cristo), Tanakh (Velho Testamento) e Besekh (Novo Testamento) e incorporo outros termos hebraicos e judaicos apropriados.

A poligamia se tornou um assunto quente na América devido a vários processos judiciais questionando as proibições constitucionais à prática e os números crescentes de famílias polígamas nos Estados Unidos. Alguns conservadores cristãos se uniram a secularistas para atacar a poligamia como um comportamento imoral e aberrante, juntando polígamos com homossexuais. Este artigo representa minha própria investigação da poligamia neste contexto histórico, bíblico e contemporâneo para ajudar cristãos a melhor entenderem a questão.

Definições

Etimologicamente, poligamia significa “muitos casamentos” (polus, muitos, e gamos, casamento) e, assim, o significado funcional de poligamia na civilização ocidental sempre foi “casamento plural com muitas esposas”. Em outras palavras, o marido é o polígamo e as esposas são monogâmicas em relação a ele. Poligamia não é casamento grupal, que tem uma base comum, nem poliamor (“muitos amores”), que consiste de relações sexuais múltiplas.

Antropólogos geralmente identificam as subcategorias de poligamia como poliginia, múltiplas esposas, e poliandria, múltiplos maridos. Alguns polígamos preferem dizer que praticam poliginia ao invés de poligamia para reforçar essa distinção. Ao descrever costumes matrimoniais em culturas antigas, pesquisadores sociais usam uma definição mais geral de poliginia para incluir uniões de facto, tais como o concubinato.

Em contraste, a monogamia é definida como a união exclusiva de um homem com uma mulher até a separação pela morte ou pelo divórcio. Em muitos países do mundo, a monogamia tem a vantagem da sanção legal exclusiva.

História da Poligamia

A poligamia e a poliginia existem desde que a história começou a ser registrada e tem sido praticada em todo o antigo Oriente Médio, Extremo Oriente, os impérios mediterrâneos, a Europa e Grã Bretanha, como atestado por arquivos reais de reis e césares e escritos de antigos historiadores como Moisés, Heródoto, Demóstenes, Políbio, Estrabão, Tito Lívio, Plutarco, Tácito, Suetônio e Flávio Josefo. Além do casamento legítimo, a prostituição no templo e os espólios de guerra eram as duas fontes mais comuns de mulheres para homens polígamos. Registros de exploradores e missionários na era cristã confirmaram a prática generalizada da poligamia entre tribos nativas na África e nas Américas.

Algumas sociedades antigas ofereciam proteção a esposas contra uma segunda co-esposa. O Código Babilônico de Hamurabi estipulava que, na ausência de circunstâncias especiais (tais como infertilidade, doença ou mau comportamento da primeira esposa), a esposa existente primeiro tinha que concordar com a segunda união. Apenas entre os gregos e os romanos havia algum esforço pela autoridade civil para impor a monogamia como casamento legítimo. Hunt e Edgar, em um artigo de revista, Select Papyri, mencionam um contrato de casamento grego que diz: “Não será lícito a Philiscus trazer outra esposa além de Apolônia”.

No entanto, o concubinato era universalmente praticado em todas as sociedades antigas conforme ilustrado na famosa citação de Pseudo-Demóstenes (4º século a.C.): “Amantes mantemos por causa do prazer, concubinas para o cuidado diário de nossas pessoas, mas esposas para nos dar filhos legítimos e para ser fiéis guardiãs de nossas famílias”. Em culturas não-judaicas, uma concubina não era uma esposa legal, mas uma escrava que vivia com um homem (frequentemente casado) para prover relações sexuais regulares. Crianças desse tipo de união não eram consideradas legítimas.

REGISTRO BÍBLICO

A Bíblia registra pelo menos quarenta homens com múltiplas esposas, incluindo quatro reis gentios: Abimeleque (Gn 20:17-18), Ben-Hadade (1Rs 20:3-4), Assuero (Et 1:9) e Belsazar (Dn 5:2). Pelo menos metade dos homens tinha mais que duas esposas. O mais antigo casamento plural registrado foi o de Lameque (duas esposas, Gn 4:19), seis gerações depois de Adão. Apesar de Lameque ser o único polígamo identificado antes do dilúvio global, não há razão para acreditar que ele estava sozinho nesse status. Os patriarcas pós-dilúvio continuaram a tradição do casamento plural: Terá (Gn 11:26; 20:12), Naor (Gn 22:20-24) e Abraão (Gn 16:1-13;25:1-6). Enquanto Isaque era monogâmico, seus dois filhos famosos eram polígamos. Esaú tinha cinco esposas (Gn 26:34; 28:9; 36:2-3) e Jacó tinha quatro (Gn 29:23-28; 30:4,9), Elifaz, filho de Esaú, tinha duas esposas (Gn 36:11-12).

Os doze filhos de Jacó e seus descendentes sem dúvida continuaram a ser polígamos considerando o número de homens em idade de combate e o número de primogênitos contados depois do Êxodo. Outros homens notáveis durante a confederação israelita identificados com múltiplas companheiras incluíam Simeão (Gn 46:10; Ex 6:15), Manassés (1Cr 7:14), Moisés (Ex 2:21; 18:1-6; Nm 12:1), Calebe (1Cr 2:18-19,46,48), Gideão (Jz 8:30), Gileade (Jz 11:1-2), Elcana (1Sm 1:2), Jerameel (1Cr 2:26), Asur (1Cr 4:5), Ezra (1Cr 4:17f), Merede (1Cr 4:17-19), Maquir (1Cr 7:15f) e Saaraim (1Cr 8:8). A tribo de Issacar era particularmente conhecida por sua prática da poligamia (1Cr 7:4). Outros homens, durante esse periodo, podem ser considerados polígamos, em virtude do número de filhos listados: Jair (Jz 10:4), Abdom (Jz 12:14), Ibsã (Jz 12:9) e Simei (1Cr 4:27).

Durante a monarquia israelita, os seis, seus filhos e outros homens proeminentes tomaram múltiplas esposas. Indivíduos citados incluem Rei Saul (1Sm 14:50; 2Sm 3:7), Rei Davi (1Sm 25:42-44; 2Sm 3:13-14; 5:13; 6:20-23; 12:8), Rei Salomão (1Rs 11:3), Rei Roboão (2Cr 11:18-21), os filhos de Roboão (2Cr 11:23; Rei Jeorão (2Cr 21:14), Rei Joás (2Cr 24:2-3) e Rei Zedequias (Jr 38:23). Outros homens, durante esse período, podem ser considerados polígamos em virtude do número de filhos listados: Hemã (1Cr 25:4) e Ziba (2Sm 9:10).

POLIGAMIA JUDAICA

Poligamia não era apenas comum entre o povo de Israel antes do primeiro século, mas foi praticada na era apostólica e na era dos pais da igreja. Flávio Josefo, o historiador judeu do primeiro século mencionou que a “antiga prática entre nós de ter muitas esposas ao mesmo tempo” continuou em seu dia (Antiquities of the Jews XVII, 1:2). Embora não indicado nas escrituras, o Rei Herodes o Grande da história da Natividade tinha dez esposas (Ant. XVII, 1:3). O pai da igreja Justino Mártir (110-165) menciona que, em sua época, homens judeus eram autorizados a ter quatro ou cinco esposas (Dialogue with Trypho the Jew, §134). Seu comentário ecoa a atitude da Mishná judaica, codificada por escrito por volta de 220 d.C. (A Mishná reflete tradições judaicas e debates de líderes judeus de tão cedo quanto 70 a.D.) Estudiosos rabínicos assumiram a continuação do casamento plural e impuseram regras para o tratamento de múltiplas esposas e seus filhos em questões de propriedade.

Em 212, lex Antoniana de civitate tornou a monogamia a lei para os romanos, mas especificamente isentou os judeus. A lei indica a presença do casamento plural no mundo romano. Mais tarde, em 285, Diocleciano revogou a exceção, mas em 393 Theodosius decretou uma lei especial contra o casamento plural entre os judeus já que eles persistiam na prática. Um aumento na população judaica era visto como uma ameaça, assim como no Egito antigo. (No século 20, poligamia entre os muçulmanos eventualmente lhes deu a vantagem no Líbano.)

Por volta do ano 1000, uma assembleia rabínica convocada pelo Rabino Ashkenazi Gershom bem Judah (960-1040) emitiu um édito proibindo a poligamia por mil anos, subsequentemente conhecido como “a proibição de R. Gershom” . A proibição de Gershom foi adotada por causa da pressão da cultura cristã predominante, que via a poligamia como barbárica. A concessão não aliviou o antissemitismo nem acabou com a poligamia judaica.

Comunidades judaicas sefarditas nos países muçulmanos do leste não reconheceram o édito de Gershom. O famoso jurista, médico e filósofo sefardita do século 12, Moses Maimonides (1135-1204) manteve a tradição talmúdica e reiterou leis que regulavam o casamento plural no volume quatro de seu Código chamado O Livro das Mulheres.

Quando Israel se tornou um estado em 1949, a proibição de Gershom se tornou legalmente obrigatória para todos os residentes judeus. De acordo com o artigoCasamento no site da Livraria Judaica Virtual, a única acomodação que foi feita permitia àqueles que vinham a Israel com mais de uma esposa manter suas famílias intactas, mas nenhuma nova esposa podia ser adicionada. Ainda assim, alguns judeus sefarditas em Israel continuavam a tomar segundas esposas em casamentos “clandestinos” sancionados por rabinos que se opunham à proibição legal.

A poligamia entre os judeus não está limitada ao sefardismo. Judeus que vivem no Iêmen e na Etiópia praticam a poligamia sob a crença de que os rabinos de Israel estão errados em sua proibição do casamento plural. Outro grupo de polígamos associados com o judaísmo são os “Hebreus Negros”, cerca de 2000 americanos negros que emigraram ilegalmente da Chicago urbana para Israel no começo dos anos 1970, alegando ser descendentes de uma das (assim chamadas) tribos de Israel.

POLIGAMIA CATÓLICA

Talvez os primeiros líderes cristãos conhecidos a defender o casamento plural tenham sido Basilides e Carpocrates, mestres religiosos do começo do segundo século em Alexandria, Egito.  Eles foram condenados como hereges pela igreja, mais por sua teologia que por suas crenças sobre casamento. Na verdade, o concubinato continuou por muito tempo depois da aceitação do cristianismo como a religião oficial do império. Mesmo tão tarde quanto os concílios romanos de 1052 e 1063, a suspensão da comunhão de leigos que tinham uma esposa e uma concubina ao mesmo tempo implica que o mero concubinato era tolerado. Ele também era reconhecido por muitos códigos civis antigos.

No entanto, no Concílio de Trento em 1563, a Igreja Católica se opôs ao casamento plural em termos mais fortes. No Cânon II da Doutrina sobre o Sacramento do Matrimônio, a Igreja declarou: “Se alguém disser que é lícito para os cristãos ter várias mulheres ao mesmo tempo, e que isso não é proibido por nenhuma lei divina; seja anátema”. No Decreto sobre a Reforma do Casamento, a igreja baniu o “concubinato” em todas as suas terras e recorreu às autoridades civis para fazer cumprir essa decisão pelas punições mais severas àqueles que não pusessem de lado suas concubinas.

O édito institucionalizou a monogamia, exigindo que todos os casamentos fossem realizados por um padre, e adotou uma crença de que o casamento assim realizado é tanto um sacramento quanto indissolúvel (uma vez casado, sempre casado). No entanto, apesar de declarar o casamento um sacramento, o celibato se tornou ainda mais sagrado. O Cânon X da Doutrina sobre o Sacramento do Casamento declara: “Se alguém declarar que o estado matrimonial deve ser colocado acima do estado de virgindade, ou de celibato, e que não é melhor estar em estado de virgindade, ou de celibato, que estar unido em matrimônio, seja anátema”.

Por sua elevação do celibato, a igreja criou sua própria versão da poligamia atraindo milhares de mulheres a desobedecer ao mandato da criação e a renunciar a vocação de serem esposas e mães para se tornarem “noivas de Cristo”. Yeshua se tornou um polígamo. Em 2006, o site das Irmãs Franciscanas afirmou: “Uma irmã ou freira (…) é uma noiva de Cristo, porque Ele a escolheu para esse propósito. Sua principal identidade é como esposa de Cristo. O Senhor pede a ela que sacrifique o casamento e a vida familiar e pertença apenas a Ele” (Frequently Asked Questions). O site agora foi alterado para dizer que as irmãs são um sinal de que a igreja é a “Noiva” de Cristo, embora a freira que fez Votos Perpétuos use uma aliança (Common Questions).

O concubinato pode ter sido banido, mas os homens rotineiramente tinham amantes na Europa católica, incluindo os padres, com pouca ou nenhuma punição pela imoralidade flagrante. A Reforma Protestante pouco fez para mudar a teologia do casamento ou as práticas de sexuais dos homens, promovendo assim injustiça por atacado às mulheres. O divórcio não se tornou amplamente legal até o século 19, mas não foi o remédio para a raiz do problema criado pela igreja. Combinado com o mito romântico ocidental de um parceiro ideal para cada pessoa, as igrejas tem frequentemente tratado pessoas divorciadas como párias. Se a doutrina católica fosse verdadeira, com o número de divórcios e segundos casamentos no último século, o Corpo de Cristo estaria numa bagunça polígama.

Poligamia no Mundo

A poligamia ainda é muito difundida no mundo, seja na forma de casamento plural, concubinato ou ambos. O Islã permite que os homens tenham até quatro esposas e quantas concubinas desejarem. De acordo com dados etnográficos no Atlas das Culturas no Mundo, 1041 de 1231 sociedades praticam a poliginia. Missões cristãs têm sofrido em algumas áreas por não tratarem a questão com sensibilidade.

POLIGAMIA AMERICANA

A América tem uma longa história de poligamia a começar com as tribos indígenas, que eram todas polígamas quando a América foi colonizada. Em meados do século 19 o conselho tribal tinha proibido a poligamia para bajular o governo branco e sob a influência de missionários brancos. A poligamia ainda persistiu entre os índios, no entanto, como evidenciado no senso de 1900 em Oklahoma, que perguntou se indivíduos da família praticavam a poligamia.

Em 1830, foi abraçada como um princípio religioso por Joseph Smith e foi eventualmente aceitada por seus seguidores mórmons. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias formalmente baniu a poligamia em 1890 como uma condição para que Utah entrasse para a União e, desde então, a igreja tem excomungado membros descobertos vivendo em lares polígamos. No entanto, a poligamia continuou entre os mórmons fundamentalistas, que acreditam que a poligamia seja essencial para atingir o mais alto grau do paraíso.

Enquanto muitos americanos associam a poligamia com os mórmons, poligamia entre pessoas religiosas e não-religiosas existe em cada seção da América, apesar de limitações legais e ostracismo social. Estima-se que praticantes do casamento plural variem entre 20.000 e 100.000 no país.

Famílias polígamas geralmente vivem juntas sob um mesmo teto ou esposas podem ocupar casas separadas ou apartamentos próximos. Algumas famílias religiosas que adotam um modelo patriarcal podem acrescentar esposas a critério do marido, mas outras famílias operam mais democraticamente, com o marido buscando o consentimento de sua(s) esposa(s) para acrescentar mais uma esposa. Quando vivem na mesma casa, cada esposa pode ter seu próprio quarto. O marido pode alternar os dias em que dorme com cada esposa ou todas as esposas podem compartilhar a cama do marido para dormir. Em muitos casos, a intimidade ocorre privadamente com cada esposa.

Outra forma de poligamia tem uma longa história na América. Um advogado no sul relatou a um terapeuta familiar como seu pai tinha outra família “no final da rua”, da qual sua mãe tinha conhecimento e apenas aceitava.  Enquanto muitas mulheres não tolerariam tal “bigamia” uma vez que tomassem conhecimento dela, outras mulheres escolhem dividir seu homem em vez de suportar a destruição do divórcio.

POLIGAMIA PROTESTANTE

Provavelmente poucos cristãos estejam cientes que Martinho Lutero preferia a bigamia secreta ao divórcio e segundo casamento. Se uma mulher tinha um marido impotente, ela poderia entrar com consentimento de seu marido num casamento secreto com seu irmão ou com outro homem mutuamente acordado e cuidar de quaisquer crianças dessa segunda união como se fossem do marido impotente. Lutero acreditava que tal arranjo era muito melhor do que o divórcio e assegurava a continuação da companhia e o apoio para cada esposa, enquanto, ao mesmo tempo, evitava a busca por prostitutas e o adultério por parte do cônjuge saudável.

Outros defensores cristãos da poligamia surgiram nos séculos 17 e 18, mais notavelmente John Milton (1608-1674), o famoso autor de Paradise Lost, Martin Madan (1726-1790), um pregador itinerante inglês do movimento metodista calvinista e autor de Thelyphthora ou A Treatise on Female Ruin, e Wesley Hall (19711-1776), cunhado de John Wesley e dedicado evangelista. Hall tinha a distinção de realmente praticar a poligamia e ainda assim muitas igrejas e cristãos evangélicos o apoiarem por todo o seu ministério.
Muitos cristãos modernos podem achar difícil acreditar, mas há conservadores cristãos crentes na Bíblia, centrados em Cristo, defendendo e vivendo em casamentos plurais. A poligamia como um fenômeno cultural entre cristãos protestantes veio a existir (ou saiu do armário) no começo dos anos 1990 e não deveria ser confundido com a poligamia mórmon. Protestantes polígamos, enquanto defendem doutrinas tradicionais cristãs, acreditam fortemente que as escrituras permitem a poligamia e a igreja deveria reconhecer esse fato. O que segue é uma análise do que a Bíblia diz sobre poligamia.

AS INSTRUÇÕES DE DEUS

No princípio, Deus ordenou a Adão multiplicar seus descendentes e encher a Terra (Gn 1:22; 9:1). Portanto, o casamento foi o padrão normativo e o desejo de Deus para homens e mulheres desde a Criação. Ele quer que todo homem se case e que cada mulher tenha um marido (cf. Gn 2:18, 21-24; 1Co 7:2; 11:7-9). Para os descendentes multiplicarem, casamentos se multiplicavam e, em algum ponto, homens decidiram que seria bom ter múltiplas esposas. Talvez, mulheres simplesmente ultrapassassem os homens em número, como agora, e com as necessidades de seu cuidado e proteção, os homens levaram a sério a ordem da criação de Gênesis 3:16 que exige que uma mulher esteja sob a autoridade de um homem, seja de um pai ou um marido (cf. 1Co 11:3; 1Tm 2:12). Com a revelação da Torá a Israel, Deus demonstrou sua aceitação da poligamia. Os mandamentos divinos não foram projetados para levar à extinção da poligamia, mas para assegurar tratamento adequado às mulheres e crianças envolvidas.

STATUS DAS MULHERES

As Escrituras identificam as companheiras de homens polígamos como esposas (Heb.Ishshah), mas às vezes como concubinas (Heb. Pilegesh). Essas duas categorias são distinguidas de outras mulheres com quem homens casados não podiam ter relações sexuais legítimas (Lv. 18). Ishshah tem um significado duplo. O significado de raiz deishshah é “mulher”, mas quando ela é usada para se referir a uma mulher que concordou livremente a pertencer a um homem com direito de consumação, então a palavra é traduzida como “esposa”. A primeira ocorrência de ishshah como esposa é em referência a Eva (Gn 2:25). Na sociedade judaica, uma pilegesh era uma esposa legítima, apesar da classificação mais baixa que a esposa principal, que é indicada pelas referências a umapilegesh como esposa (Gn 25:1; 30:4; 35:22; 2Sm 12:11; 16:22; 1Cr 1:32), o marido de uma pilegesh (Jz 19:3), o sogro da pilegesh (Jz 19:4) e o genro da pilegesh (Jz 19:5). Uma pilegesh não coabitava com um homem a menos que fosse casada com ele.

Por causa de seu status, uma pilegesh tinha o direito ao mesmo cuidado e respeito acordado a qualquer esposa (Gn 16:3; 30:4, 9). Na verdade, o Rei Davi ficou tão comovido com o amor maternal de Rispa, a pilegesh de Saul, que ele fez com que os filhos dela fossem enterrados no sepulcro da família (2 Sm 3:7; 21:8-14). Em nações gentias, uma concubina era, na melhor das hipóteses, uma amante e, na pior, uma escrava sexual que poderia ser alugada para amigos ou bordéis por seu dono. No entanto, uma pilegesh não deveria ser violada ou prejudicada por outro homem. Assim, Jacó nunca perdoou seu filho mais velho por violar Bila (Gn 35:22, 49:4). De acordo com a história de Gibeá (Jz 20), 25.000 guerreiros da tribo de Benjamim perderam suas vidas por causa do abuso e morte de uma pilegesh. Envolver-se em relações com a pilegesh do rei era equivalente à usurpação do trono, como Abner fez com Rispa (2Sm 3:7) e Absalão fez com as concubinas de seu pai, Davi (2Sm 16:21-22).

A real diferença entre uma pilegesh e a esposa principal em épocas antigas tinha a ver com propriedade. Um homem não tinha que pagar dote por uma pilegesh nem ela tinha que ter um. De acordo com o Talmude babilônico, um homem não era obrigado a fornecer um noivado formal (kiddushin) ou um ketubah (contrato matrimonial) (Sanhedrin 21a). O efeito prático de não ter um contrato matrimonial é que a pilegesh não tinha a garantia de um valor a ser liquidado, caso seu marido morresse ou se divorciasse dela. De acordo com o Talmude de Jerusalém, Kathuboth 29d, uma concubina também recebia umketubah, mas sem o apoio financeiro garantido no evento de divórcio ou morte do marido (Pilegesh, Jewish Encyclopedia). Em tempos modernos, uma pilegesh pode ser comparada com uma esposa de direito comum. Há vários modos de uma mulher pode se tornar uma pilegesh.

Por elevação

Uma vez que a maior maldição que uma mulher poderia experimentar era a esterilidade, uma ishshah  poderia dar sua criada a seu marido como uma substituta no intuito de ter filhos, como nos casos de Sarai e Agar, Raquel e Bila (Gn 16:2-3; 35:22). A ironia é que, nesses casos, a criada ainda mantinha esse status, apesar de ter se tornado uma esposa (Gn 16:9; 21:10; 31:33; Ex 23:12).

Por venda

Se uma família enfrentar tempos econômicos difíceis, um pai pode considerar vender sua filha como escrava (Ex 21:7-9). Em outras palavras, um homem pode comprar a filha virgem de outro, seja para ele ou para seu filho. Se o comprador mudasse de ideia, mas antes da consumação, ele deveria deixá-la ser redimida por outro israelita. Ela não podia ser vendida a um povo estranho.

Por captura

Homens eram autorizados a capturar mulheres durante uma guerra como suas concubinas depois de um período respeitável de luto (Nm 31:18; Dt 21:10-13).

Por desejo

Sempre houve mulheres que preferiam um marido à solidão, privação econômica ou prostituição. Assim, uma mulher, como uma virgem independente, uma mulher divorciada ou uma viúva, pode concordar a se tornar a concubina de um homem para seu benefício mútuo. Pode ser que Quetura caiu nessa categoria (Gn 25:1). Nos dias da monarquia israelita, concubinas eram adicionadas ao lar simplesmente pelo desejo sexual do marido (Ec 2:8). Enquanto o Rei Davi tinha dez concubinas, seu filho, Salomão, superou esse número com 300 (1Rs 11:3). O filho de Salomão, Roboão, tinha 60 concubinas.

Ter mais de uma mulher era um benefício prático para as necessidades de intimidade do homem, considerando as regras da Torá que tornavam uma esposa indisponível para atividade sexual por 40 dias depois do parto de um menino e 66 dias após o parto de uma menina (Lv 12:2-5), sete dias de cada mês por seu período menstrual e durante o tempo pelo qual ela tivesse uma menstruação anormal ou qualquer fluxo sanguíneo que não o fluxo de sua menstruação (uma experiência comum para as mulheres), mais sete dias que o seguem (Lv 15:25).

LEGISLAÇÃO BÁSICA

Segurança Para as Mulheres

A lei fundamental para a segurança das mulheres num casamento plural é encontrada em Êxodo 21:10. Um homem só podia tomar uma esposa adicional se ele pudesse arcar financeiramente com seus cuidados. Ele não podia reduzir a comida ou os vestidos da primeira esposa para partilhá-los com uma segunda esposa. E ele tinha que garantir a satisfação das necessidades de intimidade de todas as suas esposas.

A Torá também inclui uma provisão para as crianças inigualável na sociedade antiga. O filho primogênito tinha direito a receber uma porção dupla quando o pai morresse e ele se tornasse o cabeça da família. Deus exigia que, em casamentos plurais, os direitos de herança do primogênito da família devessem ser honrados independente de qual esposa deu à luz o primogênito (Dt 21:15-17).

Os filhos da pilegesh tinham direitos iguais aos daqueles da esposa principal. Eles nunca eram tratados como ilegítimos. Apesar de Isaque ser herdeiro de Abraão, Abraão deixou presentes para os filhos de suas concubinas (Gn 25:6). Os filhos de Jacó com Bila e Zilpa compartilhavam igualmente com os filhos com Lia e Raquel. Abimeleque, o filho de Gideão com sua concubina siquemita, subsequentemente se tornou rei sobre uma parte de Israel (Jz 8:31).

Quantas Esposas?

A questão sobre se Deus impôs um limite no número de esposas que um homem deve ter é debatido frequentemente, já que Deus impôs certas restrições ao rei em Deuteronômio 17:15-17. O verbo hebraico “multiplicar” no versículo 16 significa aumentar com muitos. A questão primária na restrição é multiplicar esposas do tipo errado, ou seja, mulheres que praticassem a idolatria. O corolário é visto na mesma proibição de multiplicar cavalos e riqueza. O rei não estava proibido de aumentar sua riqueza ou de ter mais de um cavalo, mas ele não podia confiar num exército com carros fortes, vastas riquezas ou tratados políticos através do casamento para fornecer segurança a Israel.

Estudiosos do Talmude judaico mais tarde determinaram que esse mandamento se aplicava não apenas ao rei mas também a todos os homens. Enquanto o regulamento da Torá não especifica uma limitação numérica, os estudiosos judeus determinaram que o número máximo de esposas com quem um homem pode se casar é dezoito, baseado no exemplo de Davi (Sanhedin 2:4), mas, em geral, eles desencorajavam tomar mais do que quatro esposas para atender às obrigações conjugais (Yebamoth 44a). Como Maimonides determinou: “Um homem pode se casar com várias mulheres, até uma centena delas, seja ao mesmo tempo ou uma após a outra, e sua esposa não pode impedí-lo nessa questão, desde que ele consiga prover cada uma delas com a comida, o vestuário e os direitos conjugais devidos a ela” (87).

Casamento Obrigatório

Além da liberdade dada aos homens para tomar múltiplas esposas, havia três situações específicas nas quais um homem incorria em obrigações do casamento, mesmo se ele já tivesse uma esposa: sexo com uma mulher virgem (Ex 22:16-17; Dt 22:28-29; cf. 1Co 7:36), morte de um irmão casado sem herdeiro homem, chamado yibbum ou casamento levirato (Dt 25:5-6) e resgate de propriedade vinculada a uma viúva sem filhos de relação próxima (Lv 25:25-26, 35; Rt 2:1; 3:2; 4:14).

NOVA ALIANÇA

Torá da Nova Aliança

Os regulamentos da Torá sobre o casamento plural não poderiam ter sido invalidados pela Nova Aliança, já que seu propósito era permitir que o povo de Deus obedecesse aos mandamentos da Torá (Jr 31:31-33; Lc 1:68-75; 22-20; Gl 3:17; 1Co 7:19; Hb 8:7-13; 10:15-16). Os únicos mandamentos da Torá explicitamente suplantados no Novo Testamento são aqueles relacionados aos sacrifícios no Templo pelos pecados e o sacerdócio aarônico. Em anos recentes, a Igreja Católica e um número de líderes protestantes têm divulgado comunicados decisivos afirmando que a Antiga Aliança não foi revogada no que diz respeito aos judeus. As implicações para a autoridade contínua das provisões da Torá sobre o casamento obrigatório e a regulação da poligamia são surpreendentes, mas pouco consideradas.

Yeshua deixou claro que Ele não veio para subverter a Torá (Mt 5:17). Ele também transmitiu aos Seus apóstolos a autoridade para tomar decisões vinculativas para guiar o povo de Deus (Mt 16:19; Ef 2:19-20). Alguém poderia pensar que, se o Senhor ou os apóstolos tivessem a intenção de fazer alguma mudança na permissão e no regulamento da Torá sobre a poligamia, eles teriam articulado novas leis. O silêncio de Yeshua e dos apóstolos sobre essa questão não deveria ser ignorado.

A POLIGAMIA NA PRÁTICA

Como uma prática aceita entre os judeus antigos, a poligamia teria sido muito familiar aos apóstolos judeus. Seria apenas natural para as primeiras congregações, que consistiam principalmente de membros judeus, incluir famílias polígamas. O Novo Testamento não lida com a poligamia francamente como o Velho Testamento, mas há algumas alusões ou inferências a respeito da prática.

Quando João Batista repreende o Rei Herodes por cometer adultério, o fato de que o pai de Herodes logo antes daquele período tinha dez esposas não recebe censura.

Na parábola das dez virgens (Mt 25:1-13), não há menção da noiva simplesmente porque as virgens são as noivas. Na verdade, antigos copistas dos manuscritos gregos do Novo Testamento reconheceram o significado simples e acrescentaram “e a noiva” a vários manuscritos no final de Mateus 25:1. Traduções latinas também acrescentaram as palavras, incluindo a Vulgata de São Jerônimo. Yeshua essencialmente elogiou as cinco noivas prudentes por manter bastante óleo disponível para suas lâmpadas enquanto esperavam por seu marido polígamo. Esse é o significado literal do texto. Como mencionado acima na citação de Maimonides, a lei judaica permitia o casamento com múltiplas esposas ao mesmo tempo e, sem dúvida, alguns reis israelitas construíram suas lares polígamos desta maneira.

Em 1 Coríntios 5:1, Paulo repreende a igreja por tolerar as relações imorais de um homem com a esposa de seu pai, o mesmo pecado cometido por Rúben, que dormiu com a esposa de seu pai, Bila (Gn 35:22). Esse tipo de imoralidade não existia entre os imorais gentios porque o incesto estava banido entre gregos e romanos.

Em Hebreus 3:2, Paulo contrasta o elogio de Deus à fidelidade de Moisés com a fidelidade de Yeshua, aludindo a Números 12:7, contexto que diz respeito a Moisés tomar uma segunda esposa.

Cuidado das Viúvas

Em 1 Timóteo 5:3-16, Paulo rege que viúvas acima de 60 anos seriam apoiadas pela congregação se não houvesse familiares para assumir a obrigação (1 Tm 5:4-10). Essa é uma orientação geral para crentes com parentes de sangue que são viúvas (isto é, mãe, avó, tia). A instrução de Paulo sobre as viúvas em 1 Timóteo 5:14-16, no entanto, soa notavelmente como a aplicação da obrigação de yibbum da Torá, isto é, casar-se com a viúva de um irmão sem herdeiro homem. No versículo 14, Paulo expressa um forte desejo que viúvas mais jovens (aquelas em idade fértil) se casassem. Não é impensável que, em seu entendimento judaico, ele esperasse que o parente homem mais próximo tomasse a responsabilidade da Torá.

Paulo deixa isso claro quando ordena no versículo 16 que, se algum crente tem viúvas (relacionadas por sangue ou casamento), então o crente deve aceitar a responsabilidade daquelas viúvas. Versões modernas traduzem a palavra para “crente” como “alguma mulher crente”, porque o substantivo é feminino. No entanto, o gênero da palavra grega é imaterial já que seu correspondente no idioma nativo de Paulo, o hebraico, também é feminina e tem um uso geral. A KJV introduz o verso com “algum homem ou mulher crente”, o que reforça a aplicação genérica. Essa instrução é uma ordem apostólica que tem a plena autoridade de Yeshua por trás dela e expectativa da Torá de cumprir os requisitos do yibbum.

RESPONDENDO ÀS OBJEÇÕES

A poligamia enfrenta três tipos de críticas: sua ilegalidade, seu efeito e sua imoralidade.

É Ilegal

Por definição legal, a poligamia existe quando alguém se casa ou coabita com mais de um cônjuge ao mesmo tempo em alegado exercício de casamento plural. O termo implica mais de duas em contraste com a bigamia, que significa um segundo casamento, em distinção a um terceiro ou outro.  Todos os estados adotaram leis antibigamia pouco depois da fundação do país. O Ato Edmunds de 1882 tornou a coabitação bígama contravenção, mas o Ato Antipoligamia Edmunds-Tucker de 1887 classificou a poligamia como crime. A Suprema Corte dos EUA manteve a lei em 1890.  Arizona, Idaho, Novo México, Oklahoma e Utah, que se uniram à união depois desta data incluíram proibições contra a poligamia em suas constituições estaduais.

Cristãos que se opõem à poligamia categorizam com frequência os polígamos como infratores e apelam ao comando apostólico de se estar “sujeito às autoridades superiores” (Rm 13:1; cf 1 Pe 2:13-17). Claro, adultério também é crime e um problema muito mais sério na América que a poligamia. Até cristãos cometem adultério. Contudo, não há clamor para prender todos os adúlteros. A verdade é que todos infringem a lei, nem que seja a lei de trânsito. As escrituras dizem que qualquer um que infrinja uma só lei, infringiu a lei como um todo (Tiago 2:10).

É irônico que esses que se opõem à poligamia em razão de obedecer a César também apoiam patriotas coloniais que, não só violaram a lei, mas derrubaram um governo legítimo por força das armas. A verdade é que cristãos ao redor do mundo estão prontos para violar a lei para impedir abortos, divulgar o Evangelho ou realizar outros atos de consciência a fim de obedecer a Palavra de Deus. Foi por essa razão que judeus no primeiro século continuaram a praticar o casamento plural apesar do “padrão” romano da monogamia. A afirmação de Yeshua sobre “quem Deus juntou” (Mt 19:6) ilustra que o casamento em Israel foi sempre competência de Deus e da família, não do governo civil idólatra.

Na minha visão, aqueles que praticam a poligamia, especialmente de uma base religiosa, têm sido tratados injustamente. Cristãos não deveriam tolerar violações da liberdade religiosa, só porque ela não se encaixa em sua teologia. Só se precisa fazer o levantamento dos arquivos de organizações legais de defesa para entender a natureza insidiosa e penetrante do problema. Os EUA não são uma nação cristã e nosso direito de praticar nossa fé de acordo com as Escrituras e nossa consciência estão sob ataque todos os dias.

Polígamos empregam várias estratégias para evitar penalidades legais. Alguns não registram nenhum casamento ou se definem como casados seja publicamente ou em formulários do governo. Afinal, a bigamia e o adultério só são crimes para pessoas casadas e apenas alguns estados ainda criminalizam coabitação “libidinosa e lasciva” (Flórida, Michigan, Mississipi, Carolina do Norte, Dakota do Norte e Virgina Ocidental). Polígamos podem chamar esposas adicionais de “concubinas” já que não há leis contra o concubinato. Alguns polígamos se divorciam e se casam com cada esposa por vez a fim de estabelecer uma base legal para o relacionamento. Não há lei contra viver com sua ex-esposa e esse procedimento permite a participação nos benefícios legais do casamento.

Há uma boa notícia para os polígamos. Os procuradores-gerais de Utah e Arizona disseram em entrevistas recentes que não têm intenção de processar polígamos a menos que cometam outros crimes, como incesto ou tomar noivas menores de idade. Como resultado, comunidades e líderes polígamos têm se tornado mais abertos com as autoridades para relatar crimes contra menores. Na verdade, a ameaça legal aos polígamos ao redor do país não são os processos, mas a oposição social, seja a expulsão de igrejas, discriminação por parte de empregadores, ações judiciais pela guarda de crianças, instigadas por parentes que reprovam a prática.

Talvez seja a hora de cristãos voltarem a uma visão bíblica do casamento. Um convênio de companheirismo para a vida toda sem uma licença burocrática foi considerado casamento por mais de cinco mil anos antes de o governo se envolver. Cerimônias sancionadas pelo governo, sejam civis ou religiosas, não garante a durabilidade de uma relação. Metade de todos os casamentos legais, incluindo cristãos, acabam em divórcio, geralmente com muito amargor e a um alto custo. Isso é melhor que poligamia?

É Prejudicial

O segundo ataque à poligamia critica a natureza do relacionamento. A mídia tem dado cobertura sensacionalista a vários casos de “casamentos” com garotas menores de idade ou com parentes próximos, sendo os mais notórios de todos Warren Jeffs e Tom Green. Tais histórias sugerem que todos os polígamos na América são estupradores ou fanáticos religiosos lascivos. A retórica dos ativistas conservadores da família critica a poligamia como sendo imprópria demais, perigosa demais para o bem da sociedade. A prática certamente rebaixa as mulheres e prejudica as crianças envolvidas. E a única razão pela qual ela existe é para dar aos homens todo o sexo que eles desejam.

Em resposta, esposas polígamas estão defendendo abertamente sua escolha em entrevistas na mídia, insistindo que não foram coagidas, não se sentem rebaixadas e não são escravas sexuais. Algumas têm até oferecido vislumbres interessantes em seu estilo de vida através de livros e sites. (Veja as seções de Referências sobre Poligamia e os Sites Sobre Poligamia no final deste artigo.) Elas são rápidas em lembrar o público que todo casamento polígamo tem mais mulheres que homens. De seu ponto de vista, a poligamia é primariamente para as mulheres.

A poligamia até se tornou uma nova arena para feministas reivindicarem sua causa. Na monogamia, a esposa frequentemente luta com a expectativa de ser todas as coisas para seu marido e filhos. Feministas consideram a poligamia libertadora. O famoso libertário John Tierney defendeu a poligamia num editorial do The New York Times, de 11 de março de 2006, no qual declarou que a poligamia “não é necessariamente pior do que a alternativa americana atual: a monogamia em série”. Ele vai adiante ao citar uma mulher em Utah que partilhou seu marido com outras sete, mas gozou do arranjo das creches.

“Se estou cansada como um cachorro e estressada, posso ficar sozinha e sem culpa”, ela explicou, num discurso na Organização Nacional para as Mulheres. “É raro um dia em que todas as oito esposas do meu marido estão cansadas e estressadas ao mesmo tempo”. Ela disse que a poligamia “oferece a uma mulher independente uma chance real de ter tudo” e “representava o estilo de vida feminista definitivo”.

A terapeuta familiar Audrey Chapman escreveu sobre mulheres americanas não-mórmons que escolhiam um estilo de vida polígamo. As mulheres que ela entrevistou falaram de segurança e estabilidade em seus lares. Uma mulher observou que ela “sabe a todo tempo onde seu marido está”. Ela também disse: “não me preocupo o tempo todo que ele vai abandonar e acabar com a minha família”.  Outra esposa polígama disse a Chapman que sua relação com uma co-esposa funciona porque elas não veem o marido como uma posse. As esposas nesses lares evitam a rivalidade programando o tempo pessoal com seu marido e o marido incluindo-as na tomada de decisões. Uma revelação surpreendente veio de uma esposa, quando perguntada sobre suas vidas sexuais. Enquanto o contato sexual é mantido particular e cada esposa respeita essa intimidade, ela relatou: “Na verdade não ocorre muito sexo porque a relação não é baseada em sua união física, mas numa base espiritual, em vez disso”.

A realidade é que 500 anos de monogamia forçada não evitou coabitação não-comprometida, casamentos forçados ou com menores de idade, bigamia desonesta, adultério, troca de esposas, prostituição, sedução, estupro, incesto, abuso infantil e das esposas, deserção, o estado do bem-estar das crianças e outras doenças sociais. A história social desde o Concilio de Trento sugere que a política de exclusividade da monogamia, na verdade, contribuiu para esses problemas devido à propensão libidinosa dos homens excedente de mulheres no mundo.

Evidências indicam que a grande maioria de polígamos americanos não contribuiu para a decadência cultural. Ao que tudo indica, eles são cidadãos decentes, trabalhadores e cumpridores da lei, com fortes valores familiares, éticos e morais. Pode-se apenas se perguntar como um homem que faz um voto de fidelidade para a vida toda, é responsável pelo bem-estar de suas esposas e filhos  e os ensinam a viver pela Palavra de Deus podem possivelmente ser insalubres ou prejudicar as mulheres e crianças. De fato, polígamos cristãos e mórmons fundamentalistas buscam honrar os princípios do casamento encontrados na Bíblia, assim como comprometidos cristãos monogâmicos.

É Imoral

A terceira forma de crítica aborda o material bíblico e classifica a poligamia seja como uma forma de imoralidade, na pior das hipóteses, ou como uma condição dispensacional que acabou com a Nova Aliança. Personagens bíblicos que se envolveram com a poligamia são tipicamente denegridos e não devemos ser como eles. O principal problema desses críticos é que, em nenhum lugar das Escrituras, incluindo o Novo Testamento, a poligamia é classificada como pecaminosa, proibida ou mesmo criticada (cf. Rm 4:15; 5:13). Ela nunca é incluída na definição de adultério, prostituição ou incesto.

Ademais, não há o menor sinal de desaprovação nas Escrituras de Deus ou qualquer personagem bíblico na direção de um homem porque ele tem múltiplas esposas. As implicações espirituais e de salvação para Abraão, Jacó e seus descendentes de sangue seriam muito graves se a poligamia fosse definida como perversa (cf. Dt 23:2; Jo 8:41). Na realidade, todos os valores conjugais bíblicos podem se aplicar ao casamento plural tanto quanto à monogamia. O registro bíblico de polígamos o prova. Chamar polígamos de imorais é calúnia da pior espécie.

Os nomes de polígamos nas Escrituras incluem muitos homens bons e justos, fiéis a Deus, como Abraão, Jacó, Moisés, Calebe, Abdão, Elcana, Rei Abias, Rei Davi e Rei Joás. Muitos outros nomes são listados sem qualquer avaliação de caráter e apenas poucos têm uma má reputação (Lameque, Esaú, Rei Roboão e Rei Acabe). O Rei Salomão, que tinha o maior número de mulheres, é difícil de se classificar, já que ele começou bem e acabou mal.

Algumas dessas histórias claramente revelam a atitude de Deus. Poucos expositores bíblicos consideram que, quando Agar fugiu de Sara, Deus disse para ela voltar para o seu casamento (Gn 16:9). Depois da morte de Sara, Abraão teve pelo menos duas esposas ao mesmo tempo sem qualquer comentário adverso de Deus (Gn 25:1-6). Quando Aarão e Miriã se opuseram à decisão de Moisés de tomar uma segunda esposa (Nm 12:1-9), Deus defendeu sua ação exaltando sua fidelidade (Nm 12:7) e puniu Miriã em particular por sua oposição.

Quando Davi cometeu adultério, a censura de Deus o lembrou de que, em adição às múltiplas esposas e concubinas que Davi tinha, Deus tinha dado a ele as esposas do Rei Saul “em teu regaço”, o que significa relações conjugais (cf. Gn 16:5). Ademais, Deus teria dado a ele mais esposa se ele tivesse pedido (2Sm 12:8). Então, Deus não apenas permitiu a poligamia e dirigiu o casamento em situações de casamento levirato que resultariam em poligamia, mas estava disposto a agir como casamenteiro para a poligamia.

Outro fator frequentemente ignorado é que o casamento plural era altamente valorizado na cultura israelita pelas mulheres. Sara, Raquel e Lia estavam todas ansiosas para que seus maridos tomassem uma concubina-esposa a fim de terem filhos (Gn 16:2; 30:3-4, 9). Débora, a juíza piedosa de Israel, em sua canção de louvor ao Senhor depois da derrota de Sísera, incluíram na lista dos espólios abençoados de guerra “uma ou duas moças a cada homem” (Jz 5:30). Quando Rute a moabita se casou com Boaz, as mulheres do povoado disseram: “O Senhor faça a esta mulher, que entra na tua casa, como a Raquel e como a Lia” (Rute 4:11). Abgail se uniu ao lar polígamo de Davi sem reserva (1Sm 25:39-43). De fato, as Escrituras registram a antecipação alegre de se casar com um rei polígamo (Sl 45:10-16; Ct 6:8-9).

Esquece-se com frequência que até mesmo Deus se retratou como polígamo para ensinar uma lição espiritual (Jr 3; Ez 23). Em resumo, Deus nunca permitiu algo que Ele julgasse imoral. Se Deus quisesse apenas a monogamia, apenas um “não farás” teria cuidado do assunto. Quando Deus permite algo, Ele ainda está fazendo uma escolha. Quando Deus está moralmente indignado, Ele não guarda para Si mesmo. Há coisas que Deus odeia claramente identificadas nas Escrituras, mas a poligamia não é uma delas.

CONCLUSÃO

Pesquisar o assunto da poligamia tem sido um empreendimento esclarecedor e intrigante. Polígamos oferecem argumento convincentes para seu estilo de vida e merecem ser ouvidos. A poligamia não vai desaparecer e os polígamos vão continuar pressionando por direitos iguais. Já passou muito da hora, em minha opinião, para descriminalizar a poligamia entre adultos competentes e em idade de consentimento. Encorajo todos os cristãos a estudarem por si mesmos o que a Palavra de Deus tem a dizer nessa questão importante e deixar as Escrituras serem o árbitro final. Penso que nossas igrejas poderiam se beneficiar de um maior diálogo sobre esse assunto e maior caridade em relação àqueles que escolhem viver de forma diferente que a maioria.

Outros Trabalhos Consultados

LIVROS

  • Atlas of World Cultures, Patrick Gray, ed., University of Pittsburgh Press, 1998.
  • Batchelor, Mary, Marianne Watson, and Anne Wilde. Voices in Harmony: Contemporary Women Celebrate Plural Marriage. Cedar Fort Publishers, 2000.
  • Edersheim, Alfred. Sketches of Jewish Social Life, Updated Edition. Hendrickson Publishers, 1994.
  • Hillman, Eugene. Polygamy Reconsidered. Orbis Books, 1975.
  • Kilbride, Philip L. Plural Marriage for Our Times: A Reinvented Option? Bergin & Garvey Paperback, 1994.

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Renato Furtado
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Cristão, empresário e luta pela Democracia Plena. Dono da página Todo Trabalhador é Capitalista e RenatoFurtado.com no Facebook.

3 Comentários

  1. Muito bom trabalho de pesquisa!
    Inteligentíssimo e fundamentado
    A poligamia é um fenômeno cultural
    Nunca foi o ideal de Deus.
    Para a Bíblia (Gn.2) o casamento é heterossexual e monogâmico
    A Bíblia menciona os casos de poligamia sempre para ressaltar o “rolo” que acompanha esse tipo de consórcio. O ambiente de ciúmes, disputa e falta de disciplina da educação de filhos nunca foi a vontade Deus. A visão da grandeza, exclusividade da mulher é abandonada como tantas coisas são nessa cultura hedonista. A poligamia é um reducionismo do status da mulher.
    O autor destacou que a poligamia por vezes era contingente na sociedade rural e alterada por contexto de guerra, mas faltou falar do ideal belo dos casamentos monogâmicos.

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